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S.O.S Adolescer: Implicações e riscos na caminhada de tornar-se adulto- Uma abordagem para cuidadores –

Publicada em 05/04/2018

  • S.O.S Adolescer: Implicações e riscos na caminhada de tornar-se adulto- Uma abordagem para cuidadores –

A adolescência é um fenômeno biológico, psicológico e social marcado por significativas mudanças e transformações, muitas vezes, erroneamente interpretada e estereotipada como rebeldia, “aborrecência”, etc. Trata-se de uma travessia que demanda luz e cuidado.  

Cuidar na adolescência implica conhecer o que se passa dentro e fora daquele que é cuidado, ou seja, envolve uma escuta e análise atentas às necessidades do adolescente, bem como, da compreensão de sua realidade no seu tempo, no tempo em que o jovem está inserido. O cuidado requer respeito e respeito parte de três verbos essenciais: escutar, conhecer e compreender. Não existe relação de cuidado se não houver empatia.

Além disso, o grande desafio do cuidar é equilibrar os diferentes tempos do desenvolvimento histórico, por exemplo: Como era ser adolescente em 1970, 1980,1990 e em 2018? Os cuidadores precisam compreender que o mundo adolescente mudou e, portanto, todo o conhecimento adquirido pelo adulto, através de suas próprias experiências na juventude, tem pouca validade se não forem escutados genuinamente a partir da vivência atual do adolescente. Daí a perspectiva relacionada à dificuldade que podem ter os jovens, quando se sentem incompreendidos, e dos adultos na experiência de impotência em ampará-los. Logo, aspectos acerca do adolescer devem ser iluminados afim de facilitar aos cuidadores o suporte necessário nesta travessia.

 

1-        O ENCANTO DO ADOLESCER

A adolescência é uma fase encantadora, repleta de descobertas que fascinam. O coração que bate acelerado no primeiro beijo, as mãos que suam diante da presença do primeiro amor, as festas com os amigos. Tudo é novo e intenso e, ao mesmo tempo, tudo é rapidamente mutável. As transformações experienciadas pelo adolescente podem ser avaliadas como banais, mas são mudanças importantes, por vezes difíceis de serem vivenciadas como:  alterações corporais e a “bomba hormonal” do crescimento biológico, a “nova” relação com os pais, integrar-se nos grupos, entre outras. Por este motivo é importante que este período seja acompanhado e compreendido pelos cuidadores com tolerância e flexibilidade. O medo no cuidador pode fragmentar o espaço de acompanhamento pelo uso de defesas excessivamente rígidas do adulto.

2-      DISCIPLINA

“Desdobrando as dobras”...

 

O adolescente precisa adquirir a capacidade de avaliar os riscos das próprias ações e isso requer aventurar-se em um terreno desconhecido, transformando-se em alguém capaz de decidir seus próximos passos e assumir as próprias escolhas. Para isso, naturalmente explora inúmeras alternativas, por vezes sugeridas  por outros (pais, amigos, meio social, mídias, etc). A disciplina, neste contexto, precisa vir ao encontro do bem estar e da qualidade de vida. Disciplina imposta não é disciplina, é castigo.

Se o sentido da disciplina tornar-se distorcido, jovens e cuidadores devem abertamente conversar sobre isso. Pode-se iniciar o diálogo com perguntas simples: “O que é disciplina para você? Qual o sentido dela em sua vida?”

Se a disciplina não é absorvida como castigo, pode tornar-se no sentido exato do termo, uma conduta que organiza a vida, onde o cotidiano torna-se mais leve, oferecendo ao adolescente a saudável e satisfatória sensação de que está dando conta daquilo de que necessita dia a dia. Assim, uma disciplina que vise descongestionar sua rotina, abrindo espaço também ao si mesmo com alegrias, ampliando recursos e habilidades, sem culpas ou sensações de endividamento, será sempre um fator facilitador. 

 

3-         MEDO E PRUDÊNCIA

A adolescência é uma fase cercada de medos, inseguranças e incertezas. O medo também pode estar a serviço de proteger a vida. Medos de modo geral servem para que haja prudência: prudência para parar e avaliar riscos, prudência para examinar com um cuidado maior o que se passa no momento, prudência para refletir se algo é permanente ou momentâneo, etc.

O adolescer envolve experimentações e existem medos que protegem e outros que escravizam e empobrecem. Os cuidadores precisam estar atentos às incertezas, auxiliando o jovem a refletir sobre as situações cotidianas. O diálogo pode iniciar com uma reflexão sobre as diferenças entre medos que paralisam e medos que protegem, tanto por parte de quem cuida e de quem é cuidado.

 

4-         O QUE LEVARIA AO SUICÍDIO: REFLEXÕES ACERCA DO PRIMEIRO AMOR E BULLYING

A adolescência, período de formação da identidade, é o momento no qual os jovens questionam de forma arraigada o que os sustenta e atribui sentido a vida. Momento deliciado, portanto, endereço de toda a escolta possível. O termo escolta aqui revela seriedade, mas também uma espécie de acompanhamento à distância, algo que fornece aos guardiões o sentido do seu “trabalho” no contraponto às excessivas proibições.  

Experiências como o primeiro amor ou situações relacionadas ao bullying podem se tornar agravantes se forem tratadas ou entendidas com descaso, indiferença ou desprezo e quando a dor não é cuidada, o risco de depressão e ideações suicidas torna-se maior.

 A linguagem do encontro, é aquela que acolhe o sofrimento, que valoriza o que é vivenciado e oportuniza colocar em palavras, ventilando uma reflexão acerca da diferença entre um momento ruim, um dia ruim e uma vida ruim, reflexões sobre expectativas e frustrações, sobre o que é seu e o que é de outros, sem pressão, diluindo angustias.

É importante que o adolescente possa colocar o que lhe é valoroso em local seguro para que assim torne-se possível pensar e escolher um destino protetivo ao que vive. Daí a importância de oferecer calma e cautela no diálogo. Em um momento de sofrimento intenso, no qual a vida parece não ter sentido, se torna fundamental o acesso a uma rede de proteção de cuidadores íntegros e hábeis em sustentar sua própria ansiedade e preocupação, afim de alcançar o adolescente no seu tempo para compreender o que vive.

 

5-       ESPECIAL OU DIFERENTE

Neste período da vida existe a dicotomia entre ser especial ou diferente.

Na infância não há problemas em ser diferente, já na adolescência ser diferente é o problema. Por isso os adolescentes procuram pertencer a um grupo, mesmo que isso lhe custe abrir mão de seus valores para sentir-se igual aos outros. E, então, ocorre o dilema: “Se eu faço, me descaracterizo. Se não faço, posso perder o grupo que também, nesse exercício de pertencer, me ajuda a entender quem eu sou.” O papel do cuidador aqui é auxiliar o jovem a descobrir sua própria identidade, sem bater inicialmente de frente com sua tentativa de pertencer ao social. Com o tempo o adolescente mesmo entenderá que a verdadeira aceitação pressupõe administrar bem as diferenças enquanto assumi quem se é.

 

6 -     PAIS: RETAGUARDA OU CONTROLE

            Na adolescência, a proteção dos pais e cuidadores é fundamental e deve funcionar como uma retaguarda para que os jovens se sintam seguros e tenham com quem contar.

    Pais que sejam hábeis em dizer não, são mais eficientes quando capazes de acompanhar as evoluções no processo de assimilição das frustrações que também competem aos jovens. Ou seja, a questão não está apenas nos “sins” ou nos “nãos” que dizem os cuidadores, mas em compreender claramente o sentido do que se vive. Cuidadores distantes e distraídos geram revolta nos jovens. Quando o adolescente demonstra revolta é importante ficar atento ao distanciamento que pode estar existindo no relacionamento, pois quanto maior é a distância, também maior será a velocidade com que o adolescente investirá para chegar ao ponto que deseja tocar, mobilizar no adulto, e isso aumentará o risco de colisões. Quanta força é preciso fazer para mover uma grande montanha? Grandes discussões são como colisões, podem causar avalanches, ou desmoronamentos desnecessários. E, sim, retaguarda requer controle, mas os cuidadores precisam avaliar a medida desse controle, pois quando se fala em proteção deve-se levar em consideração o grau de intensidade, uma vez que, proteção em excesso também vulnerabiliza e desampara.

 

7-         FÉ: PROTEÇÃO E AMPARO

                Quando parece que tudo mais falta, existe uma força companheira que revela que alguém, em algum lugar, está cuidando de mim. Esta força é a Fé, que é fonte de energia, sustentação, proteção, sentido e amparo. Alguma forma de Fé é presente em nossa experiência de viver de modo consciente ou não, percebê-la proporciona um relacionamento seguro, não vivenciado concretamente, mas sentido, dialogado, gerando pertencimento e até espaço para expressão de revoltas. Assim compondo uma relação facilitadora para o enfrentamento das adversidades que reforça continuamente a certeza de que não se está só.

            Do mesmo modo, na travessia do adolescer, a fé também pode ser questionada. A dúvida aqui tem sentido de movimento, é um “talvez” à serviço da liberdade de crer por amor. A melhor maneira de iniciar um diálogo íntimo, afetivo e vincular com alguém, não é pelas certezas, mas pela partilha das incertezas que vivemos. É assim que o Amor nos escuta, ampara, acompanha e acalma. Esse é o fenômeno que promove a fé: a confiança de sermos amados independentemente das nossas limitações. A experiência máxima de sermos cuidados em qualquer período de nossa existência com justa dignidade.

 

 


Fonte: NOS – Núcleo de Orientações frente à circunstâncias que envolvem o Suicídio. Ana Reis, Manoela Michelli e Vanessa Osmarin

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