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Em missão pela vida
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Vestir os nus

Publicada em 03/04/2016

No relato da paixão de Jesus presente nos evangelhos, num primeiro momento, “tiraram a roupa dele, e o vestiram com um manto vermelho” (Mt 27,28). Depois, ao crucificá-lo, o despiram “e repartiram as roupas dele” (Mc 15, 24). O profeta Isaías descreve o “homem do sofrimento” (Is 53,3), na sua indignidade, simbolizada na sua nudez exposta na cruz: “Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo”. (Is 53,2). A nudez a que foi exposto Jesus na cruz é ícone do sofrimento de todos os que são despojados de sua identidade, de sua cultura, expostos a migrações forçadas, sem um lugar para se abrigar e se sentir “em casa”, sem poder continuar a sonhar com um mundo fraterno. No Crucificado está exposta a violência social, que deixa a todos com medo constante. Sentimos-nos nus, estamos com medo, somos vulneráveis, não estamos seguros. Com quantos nomes se reveste a nudez hoje!

O primeiro sentido de nudez é, portanto, o desprezo pela dignidade humana. Para o cristão, toda vida humana é digna, pois resplandece nela a imagem de Deus (cf. Gn 1,26). Por isso, não obstante o pecado, que ofusca esta imagem, nunca perderá sua dignidade aos olhos de Deus. Deus aposta no ser humano sempre. Nunca desiste dele. A sua misericórdia restaura, ressuscita.

Recuperar a dignidade ferida significa, na Sagrada Escritura, receber novas vestes. Dar uma nova veste é uma obra de misericórdia, como fez o Pai misericordioso, ao acolher o filho que retornou para casa: “Depressa, tragam a melhor túnica para vestir o meu filho.” (Lc 15,22). Assim, também Paulo fala ao ser referir à vida nova dos batizados, pelo fato de “vos terdes revestido do homem novo que se vai renovando à imagem do seu Criador” (Cl 3,10).

Além deste significado humano-espiritual, temos também a realidade do exibicionismo e da ostentação das vestes luxuosas. A estas pessoas, Jesus, já no seu tempo, chamou a atenção: “Por que vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam. Porém, eu lhes digo, nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles.” (Mt 6,29). Em sua Carta Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco chamou a atenção a este estilo de viver, onde tudo é mercadoria e os seres humanos se transformam em “consumistas desenfreados” (n.263).

Por outro lado, positivamente, as vestes possuem o simbolismo de uma identidade e missão. Basta recordar as vestes que expressam a simplicidade de vida dos religiosos e religiosas; as vestes que caracterizam profissões ou as vestes que conduzem ao sagrado, como as vestes litúrgicas. Quanto significado numa veste simples, como o avental, que é símbolo do serviço!

Enfim, é inspiradora a conhecida atitude de São Martinho de Tours, que no inverno de 337, ao encontrar um pobre gemendo de frio, rasgou pela metade seu manto e o deu ao pobre. Para sua surpresa, na noite seguinte, Cristo apareceu-lhe vestido com a metade da capa dada, para lhe agradecer o gesto. São Martinho, e tantos outros, viveram esta obra de misericórdia e ouviram de Jesus: “eu estava nu e me vestistes” (Mt 26,36).

Estimado jovem, em que esta obra de misericórdia nos questiona?

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