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Dom Leomar Brustolin, Novo Bispo auxiliar de Porto Alegre

Publicada em 26/03/2015

  • Dom Leomar Brustolin, Novo Bispo auxiliar de Porto Alegre

O padre caxiense Leomar Antônio Brustolin, 47 anos, incorpora a partir desta quarta-feira uma nova nomenclatura: passará a ser chamado de Dom Leomar, bispo-auxiliar de Porto Alegre. O conhecido e querido pelos caxienses como Padre Leomar trabalhou por 22 anos na Catedral. É autor de 28 livros, fundou projetos que atendem desde crianças a idosos em Caxias do Sul, é professor na Faculdade de Teologia da PUCRS, cursou doutorado na Itália.

Além deste currículo invejável e do legado que deixa para a comunidade católica em Caxias do Sul, Leomar é filho de Leo Brustolin e Maria Celeste Camargo Brustolin, ambos caxienses, já falecidos. Nasceu no bairro Rio Branco, criou-se na Igreja dos Capuchinhos e sonhava em ser biólogo. Caminhava às 6h no Parque dos Macaquinhos para tentar passar despercebido pelos fiéis, já que muitos o abordavam para confessar até durante a caminhada do padre. Gosta do frio de Caxias do Sul e possuía uma coleção de 35 estátuas de Nossa Senhora _ que distribuiu em vilas de Viamão que não tinham imagens em capelas.

Em entrevista concedida ao Jornal Pioneiro,conheça um pouco do novo bispo:

Infância

Sou de Caxias do Sul. Cresci no bairro Rio Branco, nasci no Hospital Pompéia em 1967. Vivi com meu pai e minha mãe e tenho um irmão mais novo. Estudei em três escolas: escola municipal Governador Roberto Silveira, na escola particular Santo Antônio e uma escola estadual, Cristóvão de Mendoza. Tinha muita facilidade nas ciências humanas e dificuldade em matemática, mas nunca repeti de ano. Perdi meu pai muito cedo, aos 13 anos, falecido de infarto. Meu pai era sócio da Molduraria Caxiense, então assumi o posto de chefe da casa. Ele me ajudava muito nas feiras de ciências _ sempre foi a disciplina que eu mais gostei e me dediquei. E isso foi tão forte em mim que, quando fui para a universidade, cursei biologia. Meu pai montou um laboratório para nós brincarmos. Comprou um microscópio. Imagina que nos anos 70 nós analisávamos a água que bebíamos... Tínhamos tubos de ensaio, produtos químicos, e fazíamos nossas experiências caçando abelha, dissecando insetos. Eu tive pouco tempo com meu pai, mas foi o suficiente para despertar o amor pela curiosidade e pela ciência. Na faculdade, meus colegas diziam: que engraçado, você parece um filósofo. Foi então que eu disse para minha mãe, viúva, pagando faculdade pra mim: eu vou fazer Filosofia. Ela se indignou: você vai viver do que, meu filho?

Sacerdócio

Eu era catequista desde os 15 anos, mas não queria ser padre, mas cientista. Meu pai morreu achando que eu seria biólogo. Minha mãe era muito católica, mas me disse que iria rezar para não ser padre. Ela me disse: "eu preciso de você aqui, este não é o momento para você ir". Quem me ajudou muito a discernir isto foi o dom Paulo Moretto, que dizia assim: "vai, faz o que tem que fazer e promete pra Jesus que ele cuide da tua mãe e do teu irmão, que, quando você voltar, você paga em dobro o que ele gastou com esse investimento". Eu não me arrependo de nada. Nem de ter ido para Viamão. Minha mãe só aceitou minha vocação depois de ordenado padre. Todo o tempo ela tentou me fazer refletir se eu seria feliz assim. Por um lado, eu achava que ela era a dificuldade, mas foi um critério de definição para o que queria. Ela nunca achou ruim ser padre, só achava que o filho dela não deveria ser.

Docência

Gosto muito de lecionar. Quando terminei a teologia em Viamão, tinha 23 anos, mas precisava ter 25 para ser ordenado. O dom Paulo Moretto me aconselhou estudar mestrado em Belo Horizonte (MG) durante estes dois anos. Depois de cinco anos de padre, quis fazer doutorado em Teologia em Roma. Em 2005, um antigo professor meu da PUC me convidou para lecionar lá. Comecei contratado com 40 horas por semana, como pesquisador, e morando em Caxias. Trabalhei especialmente Moral Social e Antropologia Teológica. Já fui quatro vezes paraninfo, e isso me dá alegria, reconhecimento. Eu gosto de dar aula, e, como bispo, continuarei dando aula e coordenando o mestrado.

Leomar aos quase 50 anos

Sou filho da ditadura. Meu pai sempre me ensinou a respeitar o ser humano, e ele me falava contra a tortura, mas sem falar: me dizia que era preciso respeitar todo o ser humano, e nem todos respeitavam. Era uma época que não se podia falar tudo. Quando eu fazia teologia, havia uma expectativa de mudança social, e isso não veio. O Leomar de 25 e o de quase 50 é um Leomar que aprendeu a olhar com mais serenidade para a realidade. Isso eu quero dizer com menos busca de transformação, que é um anseio natural dos jovens. Hoje entendo que a história não se faz só com as próprias forças. A maturidade diz assim: existem processos históricos que independem de nós. Confio muito mais na providência divina do que antes. Eu sei que Deus conduz a história.

Posição política

Nem esquerda, nem direita. Me posiciono que um cristão, um padre, tem que ser do evangelho. Na hora que um padre se identifica com um dos grupos, ele não é mais livre. Não cairia em nenhum dos grupos: é preciso enxergar tudo, ver o que há de bom em cada grupo social, político, e manter-se fiel ao evangelho.

Inspiração

Quem me inspira na minha ação de cristão é um bispo que me aconselhou muito e já esteve em Caxias. Faleceu e agora está em processo de beatificação, que é Dom Luciano Mendes de Almeida. Como vivi em Minas Gerais tive muita aproximação com esse homem, ele me inspirou muito.

Dom Paulo Moretto

Dom Paulo me acolheu no seminário, frequentava minha família. Me ajudou muito com seus conselhos. Em 1992, ele disse: você vai morar na Catedral e, desde então, não me tirou daqui. Dom Paulo sempre me deu muita força e me estimulou. Quando Dom Alessandro (Ruffinoni) chegou, já estava muitos anos na Catedral, e me deixou aqui porque tínhamos um projeto de Pastoral Urbana, que responderia como deveria se comunicar para a cidade de Caxias, uma das cidades mais importantes para a Diocese, em termos de números. Eu saio levando um pouco de Dom Paulo, e de Dom Alessandro.

A nomeação

Fui chamado a Brasília e já imaginei que alguma coisa boa vinha por aí. Fui chamado antes do Natal e a notícia só saiu em 7 de janeiro. Não esperava me tornar bispo. Tive uma receptividade que não esperava com seminaristas, padres de Porto Alegre. Muitos foram meus alunos. Estou muito feliz indo para Porto Alegre porque a cordialidade do povo me chama a atenção. Mas senti que eu tenho que sair de Caxias. E isso é um peso para mim, mas é mais difícil ainda para a comunidade. As missas têm se tornado um misto de alegria com muita lágrima. Os coroinhas se abraçam em mim e dizem: 'não vai. Por que tem que ser assim?'. Tudo mudou porque desde o dia 7 de janeiro eu comecei minha mudança. Todos os meus livros já foram. Minha cabeça e meu coração devem descer a Serra e eu preciso entender isso. Eu conheço Porto Alegre há dez anos. Mas eu vou como bispo e, como bispo, vou com humildade e para ajudar no projeto de igreja que será construído.

Papa Francisco

Entre as ideias do Papa Francisco, a que mais me agrada é a de que Deus sempre nos surpreende. Essa eterna juventude, capaz de surpreender, não é de um Deus que eu possa aprisionar em conceitos. É preciso estar muito atento e escutar Deus. Ele pede que as pessoas reajam: que sejam revolucionárias valorizando o casamento. Que reajam contra as forças do crime organizado. Eu desconfio que muitas pessoas não imaginam a força que tem as ideias de Francisco, não percebam a profundidade. O que Francisco diz não são apenas frases de impacto, são propostas de vida.

Hobby

Nestes 10 anos compartilhando a função de docente e pároco, meu hobby era viajar. Foi meu maior investimento. Na América Latina fui para quase todos os países, em especial México e Lima. Na Europa, Lapônia, toda Escandinávia, França, Alemanha, gostei demais da Turquia, me mostrou outra realidade. A Terra Santa me chamou muito a atenção, a Grécia.

 

Fonte: Jornal Pioneiro (25.03.2015)

Raquel Fronza

raquel.fronza@pioneiro.com

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