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Fomos criados pelo Deus amor

Publicada em 25/10/2016

“‘Louvado sejas, meu Senhor’, cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recordava-nos que a nossa casa comum pode se comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe que nos acolhe em seus braços”, assim o Papa Francisco dá início à sua encíclica Laudato Si’. O documento, lançado em 24 de maio de 2015, revela a importância que a Igreja, e não só ela, deve dar às questões ecológicas.

No segundo parágrafo do escrito, o Pontífice expressa, com preocupação, o clamor do planeta. “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou.” (LS 2). Um pouco mais adiante, Francisco lança uma pergunta: “que tipo de mundo queremos deixar a quem nos suceder, às crianças que estão crescendo?” (LS 160). Antes, porém, do cuidado com a Terra, deve nos preocupar a educação e a vida do ser humano. Isso porque é a humanidade a responsável pelo desequilíbrio dos ecossistemas.

Nascida na França, a missionária Anne Marie saiu de casa aos 21 anos. O desejo de cuidar da vida nasceu na comunidade ecumênica de Taizé, uma escola de valores humanos e cristãos na localidade de Borgonha. Viajou ao México para auxiliar os índios, sobretudo, na alfabetização. Com eles, aprendeu que “estar junto”, “ser presença” é grande sinal de Deus, por vezes mais importante que grandes projetos de evangelização.

Além disso, trabalhou em El Salvador, país caribenho, onde foi martirizado o Beato Dom Oscar Romero. Inclusive, o próprio bispo a convidou para trabalhar na capital, São Salvador, para alfabetizar as classes sociais menos favorecidas. Anne, no entanto, respondeu: “não tenho vocação para ser mártir.” Alguns meses depois dessa conversa, o clérigo foi assassinado pela ditadura, enquanto celebrava a Missa. Foi aí que decidiu aceitar a proposta de Romero e foi trabalhar na capital salvadorenha. “Não tinha mais lápis, papel e outros materiais. Alfabetizávamos com galhos de árvore, no chão. Rezávamos, com medo, mas a confiança em Deus não nos deixava esmorecer”, lembra.

Extraditada, de volta à França, pela ditadura de El Salvador, conheceu Luís Itamar: um brasileiro, tetraplégico, portador de uma doença degenerativa. Ele, no entanto, trabalhava no cuidado de crianças carentes de Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. Apaixonaram-se e Anne veio ao Brasil para ajuda-lo nos trabalhos de assistência social. Alguns anos depois, Luís Itamar veio a falecer e ela continuou no trabalho com as crianças em situação de vulnerabilidade. Fundou o centro Luís Itamar, onde são atendidas muitas crianças todos os dias.

Na América Latina há 37 anos, sendo 28 no Brasil, Anne se sente “cidadã do mundo e latino-americana”. Ela fala, com propriedade, da necessidade de cuidar da vida. “No percurso dessa caminhada como missionária, descobri e reforcei a importância de cuidar da vida, porque fomos criados pelo Pai, o Deus amor. Ele nos deu uma Terra, um jardim maravilhoso para morarmos e cuidá-lo, além de cuidar um do outro, com amor e carinho.”

Sobre as experiências com os diversos povos latino-americanos, a missionária exalta a diversidade e ressalta a importância do respeito. “Nós somos filhos e filhas de um mesmo Deus e temos que respeitar as diversas maneiras das pessoas viverem sua fé”, salienta.

“Precisamos acolher os mais excluídos e pobres, porque foram explorados, manipulados por um poder que quer a riqueza para alguns e não sabe partilhar”, lembra a missionária que viveu em meio aos oprimidos pela ditatura de El Salvador, onde rezavam para fortalecer a sua fé e a comunidade. Anne relembra que o cuidado perpassa, também, por acolher os refugiados e os migrantes.

Ao se referir à oração, a “cidadã do mundo” lembra que o Pai-Nosso somente tem sentido quando o ser humano sabe partilhar dos seus dons e, sobretudo, o pão para com os famintos. “O pão de cada dia que Deus nos deu, se a gente não sabe partilhar, não poderemos rezar o Pai-Nosso. Esse pão não é meu, nem seu: é nosso”.

A encíclica de Francisco está dividida em seis capítulos. O documento, que trata do cuidado com a Casa Comum, traz um olhar da realidade socioambiental, da crise ecológica e da necessidade de viver uma ecologia de forma integral, sobretudo, a partir da fé, da educação e da espiritualidade. Sobre isso, Anne Marie comenta: “Esse jardim está muito doente e descuidado. Temos que retomar esse cuidado, com amor e respeito, se acolhendo uns aos outros”, finaliza.

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