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Diálogo entre um prisioneiro e o Papa

Publicada em 25/11/2014

  • Diálogo entre um prisioneiro e o Papa

Carmelo Musumeci é um “homem sombra” (assim chamam, entre os presos, as pessoas condenadas a prisão perpétua), detento na prisão de Pádua, condenado à “morte viva”. Mantenho com ele uma troca de cartas e quero compartilhar com vocês uma coisa muito linda que me ele escreveu.

Sou um “Sem Deus”. Há tantos anos fui arrancado do colo de Deus. Há muito tempo O mandei embora de mim mesmo e Ele se foi. Você, Papa Francisco, O está fazendo voltar.
Tocaram-me algumas frases do Papa Francisco no seu discurso na Associação Internacional de Direito Penal, dia 23 de outubro de 2014, e decidi escrever algumas das minhas considerações.

Papa Francisco: Vivemos em tempos nos quais, tanto por alguns setores da política, como por parte de alguns meios de comunicação, incita-se à violência e à vingança, pública e privada. 
Um homem sombra: Penso que não conheço profundamente o amor de Deus, mas conheço bem o ódio dos homens que me mantêm prisioneiro como um animal na jaula. 
Papa Francisco: Populismo penal, neste contexto, nos últimos dez anos se difundiu a convicção de que através da pena pública se possa resolver os problemas sociais mais diferentes, como se para as mais diversas doenças fosse recomendado o mesmo medicamento. 
Um homem sombra: Os prisioneiros, assim como eu, são fábricas de ódio e é difícil melhorar as pessoas com a violência e o sofrimento. A prisão, neste modo, nos transforma em monstros porque aqui não existe o amor. Se somos homens não podemos estar sozinhos anos e anos fechados em uma cela, devemos estar junto a outros homens melhores que nós.

Papa Francisco: Muitos juízes e operadores do sistema penal devem desenvolver o trabalho deles sob a pressão dos meios de comunicação de massa, de alguns políticos sem escrúpulos e das rígidas ameaças que se encontram na sociedade. 
Um homem sombra: Sou fortemente convencido de que perdoar é mais fácil do que ser perdoado. O perdão nos faz amar o mundo, a ameaça nos faz odiar. O perdão é a melhor ameaça que uma sociedade pode dar, porque  incrivelmente tira o sentido de culpa para o mal feito. Muitos não sabem amar porque não são amados, outros têm o amor no coração e não sabem. Uma pessoa que infringiu a lei de Deus e dos homens para ser recuperada, não deveria precisar de barras de ferro, mas de ser amada como uma pessoa livre. Uma pessoa, para parar de ser desonesta, precisa aprender a amar tudo e todos, porque quem ama, antes de tudo, faz o bem a si mesmo, porque somente o amor nos faz felizes.
Papa Francisco: Todos os cristãos e os homens de boa vontade são, portanto, chamados a lutar não somente pela abolição da pena de morte legal, ou ilegal, e em todas as suas formas, mas pela dignidade humana das pessoas privadas da liberdade. E isto, eu conecto com a sentença de prisão perpétua. No Vaticano, há pouco tempo, no Código penal do Vaticano, não existia mais a prisão perpétua. Ela é uma pena de morte escondida.
Um homem sombra: A prisão perpétua é uma pena de morte em gotas. É errado dizer que se assemelha à pena de morte, porque é muito pior. Na pena de morte se sofre morto, enquanto que na prisão perpétua se sofre vivo. Com a pena de morte termina a punição e a vida. Com a prisão perpétua inicia uma agonia que durará por toda a vida. Os prisioneiros perpétuos vivem destacados e alienados de todos os outros prisioneiros, no nosso mundo de solidão e sombra. Para nós, morrer é a coisa mais fácil e viver, a mais difícil. Sonho frequentemente em ver um fim na pena para ter um calendário na cela e marcar os dias, meses, anos que passam.



 

 

 

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