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Em missão pela vida
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Suor Cristina

Publicada em 08/11/2014

Fui educada em colégio de freiras, o saudoso Nossa Senhora de Sion, que existe até hoje, embora com menos religiosas andando por suas galerias e salas de aula do que no meu tempo.  E desde pequena impressionava-me muito a vida de minhas educadoras, mulheres consagradas, que haviam renunciado a formar uma família e às alegrias legítimas da vida, para dedicar-se inteiramente a Deus e seu Reino.

Ao longo de minha formação conheci muitas irmãs, dos mais variados temperamentos e perfis.  Havia as que nos davam medo, bravas e sérias.  Outras, nos faziam rir, partilhando conosco uma alegria meio infantil, pura e correndo conosco pelos corredores, cúmplices de nossas travessuras.  Outras transpiravam bondade pelos poros e nos comoviam com sua personalidade inteiramente voltada para o amor e o serviço.

Tempos depois, estudando teologia, eu as tive como colegas, companheiras e pares.  Mas também as conheci ao dar assessorias por lugares longínquos e desconhecidos do Brasil, ou mesmo em periferias do Rio de Janeiro.  Ali eu as via missionárias, fazendo tripla jornada, com profissão, trabalho pastoral e noites sem dormir, atendendo os necessitados do bairro ou do campo.  Ali onde ninguém queria estar, estavam as irmãs, dando a totalidade de sua fecundidade não tornada maternidade biológica, mas transformada em maternidade real e teologal, ajudando fracos e oprimidos, fazendo brotar vida onde a vida seria humanamente impossível.

Lembro-me ainda, nos dias de minha juventude, de uma religiosa dominicana belga, Soeur Sourire (Irmã Sorriso), que gravou um disco de imenso sucesso, cujo carro chefe era uma canção que falava da vida de São Domingos e cujo estribilho soava assim: Dominique, nique, nique… A Irmã Sorriso cantou e gravou discos até o dia em que saiu da congregação e fundou com uma amiga uma escola para crianças autistas.  As dificuldades financeiras e os obstáculos para relançar-se como cantora conduziram-na à depressão e posteriormente ao suicídio.  Irmã Sorriso levou até o final de sua tumultuada história a cruz dos dominicanos pendurada em seu pescoço.

Por que todas estas histórias?  Porque estou muito impressionada com o mais recente sucesso do programa The Voice, a freira ursulina italiana Cristina Scuccia.  Dona de uma voz belíssima e potente, e de um domínio de palco e de corpo incomparáveis, Sor Cristina ganhou o primeiro lugar na edição italiana do The Voice e bateu todos os recordes no YouTube com mais de 100 milhões de visitas em seus vídeos.  Seu primeiro disco, “Sister Cristina” está prestes a sair.

Ultimamente, Sor Cristina tem se tornado fonte de perplexidade nos meios católicos por haver incluído neste último a canção Like a Virgin, grande sucesso da polêmica cantora pop Madonna. Ela o faz com novo ritmo, de balada romântica, mas a escolha não deixa de escandalizar os católicos mais conservadores, que creem que as freiras deveriam estar trancadas nos conventos e clausuras, dedicando-se a rezar e fazer penitência.  Uma freira cantora dificilmente entra nesses parâmetros.

Sor Cristina não tem medo das críticas.  Ao contrário, as enfrenta com coragem e ao mesmo tempo com doçura e serenidade.  Afirma e reafirma que a escolha da canção de Madonna não tem como objetivo escandalizar a audiência.  Incluiu-a em seu repertorio depois de escutá-la atentamente e descobrir que versa sobre a capacidade de amar e de renovar as pessoas.

Ao reparar na letra da canção, não podemos não achar que Sor Cristina faz uma interpretação possível, pois as palavras falam de uma mulher que estava “vencida, incompleta, havia sido enganada, triste e deprimida” …até que encontra alguém, que a faz sentir-se radiante e nova.”  É então que canta o mote da canção: “Como uma virgem tocada por primeiríssima vez.  Como uma virgem quando teu coração bate junto ao meu.”  Sor Cristina, na flor de  seus 26 anos, declara que sente uma grande responsabilidade diante do dom e do talento que Deus lhe deu e que seu único objetivo é prestar seu testemunho entusiasta por haver encontrado  Cristo.  Tudo que deseja é transmitir sua vivência.

Apesar de todos os riscos, não podemos deixar de admirar a audácia desta religiosa jovem e talentosa, que acaba de renovar seus votos de pobreza, castidade e obediência, e que pretende doar o que ganhar com a venda de seu disco a obras de caridade. Se a Igreja tem que estar na rua, sacudindo os corações, como deseja o Papa Francisco, por que não poderia chegar a Boa Nova aos jovens de hoje pela bela voz dessa inusitada intérprete?

Quando se trata do Evangelho de Jesus é preciso ousar.  Sem medo.  Sor Cristina ousa. Bendita seja!  Ela tem quem por ela olhe.  A superiora já lhe disse que o mais importante é não descuidar de sua vida espiritual. Concordamos e aplaudimos, Sor Cristina.  Conte com nossas orações e nossa vibração pela beleza que você faz o mundo ouvir.

Texto de Maria Clara Bingemer, Teóloga PUC-RJ

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